Testemunhas relataram ao Ministério Público estratégias de incursão, momentos de tensão e cenário das florestas, com barricadas e casamatas
As matas da Serra da Misericórdia foram cenário de terror e angústia durante a megaoperação que resultou na morte de 121 pessoas, no dia 28 de outubro. A floresta faz parte do quarto maciço urbano da cidade do Rio, depois de Floresta da Tijuca, Medanha e Pedra Branca. Os trechos ocupados por homens do Comando Vermelho ficam entre os Complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte do Rio, e foram estudados previamente pela polícia no planejamento da incursão. Foram usadas ferramentas de geolocalização e georreferenciamento e ficou estabelecido, no planejamento policial, que os pontos cruciais para o avanço das tropas seriam a Pedra do Sapo e o Morrão. Passados esses trechos, policiais acessariam a área de mata, onde estavam escondidos outros integrantes da facção.
A Pedra do Sapo, que fica no lado do Alemão, é tida pelos traficantes como área crucial para a contenção de policiais durante operações. Em outras ocasiões, eles teriam tido dificuldade para ultrapassá-la. É o que conta o delegado André Luiz de Souza Neves, diretor de Departamento de Polícia Especializada (DPGE), em depoimento ao Ministério Público. O terreno foi desenhado como estratégico para que a operação prosseguisse, antes que os homens do CV recalculassem as rotas.
Policiais em incursão em mata do Alemão — Foto: Divulgação/Governo do Estado.
“Tem equipe de operações passadas que ficou duas horas para cruzar duas ruas. É ‘bala, bala, bala, bala, bala”, disse Neves ao MP.
Superada a Pedra do Sapo e com tiroteio incessante, os policiais, segundo depoimento de testemunhas, avançaram para a região de mata.
‘A gente não vai sair vivo’
Dois agentes presentes na incursão, segundo o diretor da DPGE, narraram que, no momento em que a noite caiu, o desespero se instaurou. Após mais de dez horas de operação, o confronto prosseguia, e policiais ouviam colegas baleados em meio à escuridão:
“Começou a escurecer, a gente olhou um pro outro e falou assim: a gente não vai conseguir sair daqui, a gente não vai conseguir, a gente não vai sair vivo daqui”, lembrou Neves, recuperando a declaração de um dos policiais ao qual atribui o relato de horror.
A continuidade do confronto e o abatimento de policiais pelo Comando Vermelho, segundo mais testemunhas citadas no relatório, teriam “transformado a operação para cumprimento de mandados em operação de resgate”. A transição foi relatada pelo tenente-coronel Marcelo Corbage, comandante do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), que prestou depoimento na sede das Promotorias de Justiça de Auditoria Militar.
Segundo ele, em outras operações, houve recuo dos traficantes ao se depararem com o Bope. No dia 28 de outubro, “os criminosos resistiram e sustentaram o confronto de maneira nunca vista”.
O terreno de floresta após a Pedra do Sapo é uma área protegida pelos homens “de inteligência do Doca”, disse Neve: “É uma das rotas de fuga dele”.
Ranulfo Brandão Filho, subsecretário de gestão operacional da PM, contou ao MP que algumas delas eram subterrâneas. A área ocupada pelos homens de confiança de Doca, o mais procurado chefe do CV no estado, tem até casamatas, fortificações para os traficantes se esconderem.














