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COPA DO MUNDO

Primeira mulher no Brasil a narrar uma Copa do Mundo, Renata Silveira fala sobre machismo e ‘hate’ nas redes: ‘Duvidam da nossa capacidade’

A narradora Renata Silveira — Foto: Marina Calderon

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Narradora carioca de 36 anos está nos Estados Unidos, onde comandará quatro jogos da fase de grupos da Copa do Mundo 2026

 

Renata Silveira só dormiu quatro horas na noite anterior a esta entrevista. A narradora esportiva da Globo, de 36 anos, está no olho do furacão, mas por um bom motivo. Acaba de embarcar para os Estados Unidos, integrando o time de narradores da TV Globo para a Copa do Mundo 2026. Por enquanto, será a voz oficial de quatro jogos da fase de grupos. Além de ter mergulhado em estudos e leituras sobre os países e as seleções que estarão no campeonato e, em paralelo, emprestar a voz para comandar partidas do Campeonato Brasileiro e da Conmebol Libertadores, Renata se dedica aos cuidados com Rafaela, de 6 meses, sua filha caçula. “Estou vivendo o auge da carreira, que é cobrir uma Copa in loco, após a volta da licença-maternidade. Serão duas semanas fora, meu coração está apertado por causa das crianças, mas tenho uma rede de apoio muito legal”, diz Renata, também mãe de Bernardo, de 13 anos, do casamento com o empresário Leandro Guimarães.

Apaixonada por dança e esportes desde a infância, quando foi a incontáveis vezes no Maracanã com o pai, grande incentivador de sua carreira, Renata, carioca do bairro de Ramos, no subúrbio do Rio, começou a dar aulas de balé, jazz e sapateado aos 15 anos. Mais tarde, formou-se em Educação Física e, em seguida, engatou uma pós-graduação em Jornalismo Esportivo. “O ano era 2014 e tudo aconteceu ao mesmo tempo. Abri uma escola de dança, a La Vie Danse, e procurava estágio em jornalismo. Mas, era muito difícil, porque eu não tinha a graduação. Foi quando surgiu o concurso da Rádio Globo, o ‘Garota da voz’”, relembra. O prêmio para a vencedora era narrar um jogo da Copa realizada no Brasil. Nesse momento, a narração se apresentou como uma possibilidade, ainda que não houvesse referências de outras mulheres fazendo o mesmo. “Não era um sonho. Eu admirava a Fernanda Gentil, a Glenda Kozlowski, a Vanessa Riche, mas elas eram comentaristas, não narradoras. Quis aproveitar a oportunidade para, quem sabe, conseguir uma vaga em outra área de comunicação na empresa.”

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A narradora Renata Silveira — Foto: Marina Calderon
A narradora Renata Silveira — Foto: Marina Calderon

Mas sua voz já estava destinada a um caminho sem volta. Renata desbancou 80 candidatas, e o prêmio foi a narração da partida entre Costa Rica e Uruguai. Assim, tornou-se a primeira mulher no Brasil a narrar uma partida no Mundial. “Eu me apaixonei, e parecia algo promissor. Busquei cursos, fiz aulas, porque não tinha base. Foi meu foco até 2017. Aí, no ano seguinte, o canal Fox Sports lançou outro concurso parecido, maior, com 300 inscritas. Passei com outras cinco meninas e tive certeza de que era mesmo o que queria fazer”.

A jornalista e apresentadora Vanessa Riche, que comandou o treinamento na ocasião, destaca o talento de Renata aliado ao seu timbre único. “A narração é a construção da emoção que depende de uma boa voz. E a dela é grave, firme. Treinamos as situações mais adversas para o que possa acontecer em campo. Renata é preparada para o desafio de trabalhar em uma sociedade que cresceu apenas ouvindo vozes masculinas.” A comentarista Ana Thaís Matos acrescenta que a espontaneidade é o maior trunfo da narradora. “Renata é uma pessoa com cultura de arquibancada, sente quando precisa mudar o tom do jogo ou dialogar mais com o sentimento que a partida pede”, elogia.

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Em 2022, entrou para a Globo e, em mais um ano de Copa, foi pioneira, novamente, ao narrar os jogos na emissora. Desde então, Renata enfrenta desafios diários e comentários machistas nas redes sociais. “Vêm de todos os lados, de homens e mulheres. Existe ‘hater’ para tudo. Sei diferenciar uma crítica de uma ofensa, de ameaças, porque elas existem. Mas a sensação é de enxugar gelo, porque você denuncia e nada acontece”, lamenta a narradora. “As pessoas duvidam da nossa capacidade. Preciso estudar sempre mais porque, se eu errar, vão dizer que é por ser mulher”, garante. Para o comentarista Caio Ribeiro, dupla de Renata nas transmissões, seu espaço foi merecidamente conquistado. “Ela é uma ótima profissional, talentosa e amiga querida. Tenho orgulho em trabalhar ao lado dela.”

Logo que o Mundial acabar, o foco de Renata será na Copa do Mundo Feminina no ano que vem, que acontece no Brasil. O poder e a importância das mulheres no futebol, acredita, caminham junto com a evolução da narração. “Quem fala mal do futebol feminino é porque não conhece ou não acompanha. Hoje em dia, os números de audiência das partidas são ótimos”, explica. Com isso, ela alerta também para a importância das transmissões na TV aberta e a maior divulgação do esporte feminino. “Não adianta termos os jogos sem divulgação ou transmissões, valores acessíveis de ingresso ao público e falta de patrocínio. É preciso investimento nos times femininos principais e de base”, acredita. “Para que haja melhora concreta, a roda toda tem que crescer e girar”.

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