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Paula Fernandes abre as dores de uma vida: ‘Fui injustiçada. Não sou a pessoa que alguns descrevem’

Paula Fernandes diz que foi injustiçada: ‘Quando me assediam e eu digo não, vão sair falando bem de mim?’ — Foto: Flashbang Media House

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Paula Fernandes volta aos palcos nesta quinta-feira (16) no Vibra São Paulo ao lado de convidados. No show, artista revisita momentos da carreira e conta histórias de sua vida íntima. A Marie Claire, cantora avalia sua trajetória, diz que sua fama de antipática é injustiça e comemora o sucesso de outras mulheres no sertanejo, estrada que ela ajudou a pavimentar

 

“Conquistei tudo que eu almejei”. É com serenidade que Paula Fernandes sobe ao palco na noite desta quinta-feira (16) para o show ‘30 e poucos anos’, uma celebração à sua trajetória na música sertaneja. Aos 41 anos, a mineira de Sete Lagoas mexeu em seus baús e pescou aquilo que permaneceu. Resgatou hits, memórias e reflexões. “É bom encarar tudo isso com a maturidade que eu tenho hoje”, conta a artista em conversa com Marie Claire.

Ela foi entrevistada por telefone, no intervalo de um dos muitos ensaios da apresentação. A dedicação, física e emocional, foi extrema. Isso porque ela prepara uma experiência multissensorial, com projeções, luzes, efeitos especiais e até aromas. Quer presentear os fãs que permaneceram fiéis ao longo de sua trajetória com um espetáculo que seja capaz de transportá-los através de memórias.

Paula Fernandes celebra porque sabe que a caminhada não foi fácil. Filha dos montes e das montanhas gerais, manteve o espírito brejeiro, um romantismo inocente. Quando se viu diante do sucesso absoluto, se fechou. A decisão, uma forma de se autoproteger do assédio brutal que sofreu, provocou ruídos e mal-entendidos. “Eu estava ali, jogada, requisitada por todo mundo, com a cabeça de interior. Não estava acostumada a lidar com gente”, conta. Seu jeito tímido, porém, se quebra quando é ouvida. Fala com consciência, autocrítica e coragem. Paula Fernandes quer questionar: seu lugar, o mercado musical, a mídia. E quer contribuir com aquilo que tem: a música.

Também está interessada em contar as dores de sua história. Lembra as muitas vezes em que avançaram sobre seus limites. Eram 200 shows ao ano, em cidades espalhadas por todo o Brasil, cinco regiões, quatro cantos. “As pessoas não param para pensar quantas vezes eu fui assediada. Isso é coisa que eu não fico falando em entrevista, mas é verdade”, declara.

Quando subir ao palco nesta noite, terá ao seu lado nomes como Zezé Di CamargoGuilherme & Santiago, Simone MendesSérgio Reis e Padre Fábio de Melo. Ela também convidou Ana Castela, com quem vai dividir o palco pela primeira vez e a quem faz elogios. “Ela realmente conquistou o espaço dela e mais rápido do que eu, então fico feliz que ela não precisou esperar tanto”.

Foi difícil rever sua trajetória?
Mexer nos guardados da gente é muito legal. Às vezes dói, mas nesse caso é gostoso. É bom encarar tudo com a maturidade que tenho hoje. A história da gente é importante para a gente, obviamente, mas também sei que a minha história é importante para muitos. Estou sentindo orgulho e saudade, misturado com a expectativa de poder fazer de novo tudo o que eu tenho vontade.

Você promete uma experiência multissensorial. O que o público pode esperar?
Eu não posso dar muito spoiler, mas digo que participei de tudo, da concepção, dos arranjos, da criação dos conteúdos. Captei muita coisa inédita minha, no meu habitat. Acho que talvez seja uma surpresa, porque as pessoas têm contato com a Paula Fernandes sempre arrumada, maquiada, com cabelão. Ao longo do tempo, acabei me tornando muito discreta, não me mostrando tanto e as pessoas me sentiram muito distante. Na época em que fiz muito sucesso, não tinha rede social como hoje. Então, eu não tinha oportunidade de me humanizar. Isso me fez muita falta, porque eu já sou super tímida, estava sozinha, com todo mundo me olhando torto. A gente acabou perdendo um pouco do controle.

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Que tipo de conteúdo você gravou para os shows?
Vou trazer um pouco do que eu sou no meu dia a dia, na minha casa, com os meus bichos, meus cavalos. Pouca maquiagem, descalça. Porque o meu habitat é esse. Vai ser uma boa oportunidade das pessoas me conhecerem. É uma experiência multissensorial por outros motivos também. Há um show de luzes, projeções. Quero que as pessoas se lembrem para sempre que estavam lá. Vai ter cheiros em momentos variados, que remetem às músicas. Não é só ver e ouvir, o cheiro vai trazer uma memória afetiva.

Um dos convidados é Ana Castela, que representa a nova geração de mulheres do sertanejo. O que mudou nos últimos 30 anos?
A luta continua. Tem uma estrada gigante para percorrer, não só no nosso meio. Quem veio antes de mim sofreu muito mais que eu. Com certeza, também sofri muito mais do que quem está aí hoje. Pavimentaram a estrada para mim, eu pavimentei para alguém e elas estão pavimentando para quem virá.

Paula Fernandes — Foto: Flashbang Media House
Paula Fernandes — Foto: Flashbang Media House

Como você avalia a música sertaneja atual?
Não quero e nem posso me colocar numa posição de melhor, porque isso não existe. O que é um hit? O que que é sucesso? O que é música boa? Fico muito feliz quando ouço que sou referência de boa música. Fui reconhecida e conquistei tudo que eu almejei. Quando eu observo e vejo cantoras como a própria Ana fazendo sucesso, vejo que tem gente que leva uma vida para fazer sucesso e tem gente que faz sucesso rápido, o que foi o caso dela. Isso me dá orgulho porque ela não teve que passar pelo que eu passei. Tem muitas mulheres maravilhosas esperando a mesma oportunidade.

É mais fácil ser uma cantora sertaneja hoje?
Melhorou muito, mas acho que tem que melhorar mais. As grades de shows, os outdoors [dos principais festivais e rodeios], ainda têm poucas mulheres. É uma coisa que eu acho muito complicada. Pelo que acompanho, as cantoras que estão em alta são artistas que realmente conquistaram o espaço delas. Mas também vivemos em meio a muitas dúvidas. Tem muita gente que está nas mais tocadas que ninguém sabe quem é.

Você avalia que esse show é uma retomada ou o encerramento de um ciclo?
Já tive tempo o suficiente para entender que a caminhada é o legal. Essa retrospectiva é uma celebração, um resgate da Paula Fernandes que eu também estou sentindo falta. Transitei e fiz muita coisa nesse período. Eu e os meus fãs estávamos sedentos pela volta do corselet, do cabelo cacheado… Não que eu tenha me perdido nisso, mas nesse período pude me dar ao luxo de fazer muita coisa ou não fazer coisa nenhuma.

Esse respiro foi importante?
Sim. As pessoas às vezes falam: ‘Ela está sumida’. Mas não. Eu me resguardei. Fiz questão de fazer isso porque a vida é minha e as escolhas também. Eu não estou fazendo esse projeto para ser mais realizada, eu já sou realizada. Acredito que muitos ciclos se fecham e outros se iniciam. Isso é inevitável, é a vida. Eu estou em uma fase de mais maturidade, serenidade, coerência, equilíbrio na minha vida pessoal também.

Você já declarou que não funciona “sob pressão”. Isso prejudicou sua carreira?
Minha mãe sempre fala que eu sou destemida. Eu não posso negar que eu sou um produto para muita gente. Sou uma pessoa, uma artista, uma compositora, uma pessoa sensível. Mas, muita gente vive do que eu faço. Eu não faço música de pensamento, eu faço música de sentimento. Eu respeito muito meu processo e eu acho genuíno. Então, eu preciso do meu canto, do meu momento, do meu descanso, eu preciso deixar fluir. Com a vida de viagem, para cima e para baixo, eu não consigo compor.

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Você disse que se tornou mais introspectiva. Foi uma escolha?
Eu fui injustiçada e ainda sou. Eu realmente não sou essa pessoa que alguns descrevem, porque eu acho que a grande maioria já entendeu que sou uma pessoa introvertida, tímida. Se eu fosse mais vaselina, que vai com todo mundo, beberrona, baladeira, talvez as pessoas me achassem mais simpática. Eu gosto do meu ambiente, do meu canto. Não sou aquela pessoa que chega e fala, ‘olhem para mim, eu sou a Paula Fernandes’. É o meu jeito.

É autoproteção também?
Quando o sucesso está acontecendo, ninguém quer saber. Você é telefone público, todo mundo quer pegar. Parece que de um tempo para cá a coisa está um pouco diferente. Naquela época, eu sofri muito preconceito. As pessoas não param para pensar quantas vezes eu fui assediada. Assediada mesmo. Você acha que quando alguém me assedia e eu muito elegantemente digo não, ele vai sair falando bem de mim? Por quê? Isso é coisa que eu não fico falando em entrevista, mas é verdade. Na época, eu não conseguia atender todo mundo. Eram 400, 500 pessoas na minha porta. Impossível. Houve muitos erros da minha equipe. Houve muitos erros de gente despreparada que estava me representando, mas eu não tinha consciência do que estava acontecendo. Eu errei, assumo, porque sou humana. Eu estava ali jogada, aquela situação gigantesca acontecendo, sendo requisitada por todo mundo, com uma cabeça de interior que não estava acostumada a lidar com gente.

Paula Fernandes diz que foi injustiçada: ‘Quando me assediam e eu digo não, vão sair falando bem de mim?’Paula Fernandes diz que foi injustiçada: ‘Quando me assediam e eu digo não, vão sair falando bem de mim?’ — Foto: Flashbang Media House

Em quê você se sente injustiçada?
Me chateia muito ser taxada de antipática, porque sou uma pessoa introspectiva, introvertida. Mas sou piadista, uma pessoa descontraída. Sou boba, moleca. Essa é uma versão que estou conseguindo mostrar aos poucos na rede social. Pouco, porque até isso eu tenho um pouco de receio, porque o pessoal diz que estou forçando a barra. Estou só sendo eu, entendeu? Foi muito grande o que aconteceu comigo.

Você lê comentários na internet?
Não leio porque estou muito ocupada. Responder é dar voz aos tolos, sabe? Todo mundo é corajoso atrás de um celular.

Você está no ar em Coração Acelerado. Como é a experiência de fazer sua primeira novela?
Eu estou completamente apaixonada. É muito especial. Ela é avó da Agrado [a protagonista, vivida por Isadora Cruz]. Agora, posso realizar algo que sempre esteve na fantasia: sair do meu personagem para ser um outro. Agora, quero fazer cinema. De repente, uma vilã. Todo mundo me acha boazinha demais.

Você não é boazinha?
Sou chata, sou exigente, eu gosto de trabalhar com gente organizada. Sou disciplinada, comprometida, mas isso está fora de moda. Elegância está fora de moda. Eu gosto de ser ponderada. Sou a pessoa que não quer falar bobagem. Se isso é ser antipática, então eu sou. Se isso é ser chata, eu sou também. Não vou mudar. Melhorar sim, mas mudar, não.

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