Atriz retorna aos palcos nesta sexta-feira (10) com o espetáculo ‘CHOQUE! Procurando Sinais de Vida Inteligente’, seu primeiro monólogo. Dirigida por Gerald Thomas, ela conta a Marie Claire que cambaleou, mas seguiu acreditando na própria intuição
“A gente precisa ser a nossa bússola”. É assim que a atriz Danielle Winits avalia as mais de três décadas dedicadas à atuação. A partir desta sexta-feira (10), ela retorna aos palcos com o espetáculo ‘CHOQUE! Procurando Sinais de Vida Inteligente’, dirigido por Gerald Thomas. Na peça, ela interpreta uma mulher em busca de respostas. Fragilizada pelas violências cotidianas, ela se rebela.
A peça, escrita pela norte-americana Jane Wagner, originalmente encenada em 1985, foi atualizada e ganhou novos contornos. No palco, Winits quebra as expectativas do público. Não usa maquiagem, se despe da vaidade e se mostra como é: uma mulher de 52 anos e ainda inquieta. O texto questiona padrões sociais, a lógica capitalista, a superficialidade da cultura de massa e os limites das relações humanas. “As mulheres sofrem violências que vêm de vários lugares, de várias vertentes”, conta a atriz em conversa com Marie Claire.
Danielle Winits diz que críticas após dois divórcios deixaram cicatrizes: ‘Fui vilã, apedrejada por ser quem sou’ — Foto: Robert Schwenck
Winits diz que o texto a fez repensar a própria trajetória. Isso porque ela também precisou enfrentar as pequenas – e grandes – violências para bancar sua felicidade. Na vida pessoal, terminou dois casamentos, com os atores Cássio Reis e Jonathas Faro, até reencontrar o amor com o também ator André Gonçalves. No trabalho, rasgou o rótulo de sex symbol para construir outras rotas. “Precisei seguir caminhando, quase cambaleando, sendo apedrejada por ser quem eu sou, bancando. Isso me feriu muito ao longo do caminho”, conta.
Quando estreou ‘CHOQUE!’, a atriz foi surpreendida pela presença de Fernanda Montenegro, que se declarou publicamente logo após a sessão. O vídeo, que viralizou, ainda deixa a atriz surpresa. “Eu sempre me emociono quando lembro”, diz. Isso porque Winits parece não ter dimensão de tudo o que já construiu. Ela segue com uma certeza: ainda há muito o que buscar. “Não tem atalho. O único caminho é o trabalho”, conta.
A Marie Claire, ela também fala da busca pela felicidade, da sensação de fazer seu primeiro monólogo, do poder da intuição e da sensação de ser aplaudida pelos pares.
Desde a estreia, você coleciona elogios. Isso te surpreendeu?
Eu fui muito abençoada. Na terceira semana, a Fernanda Montenegro, nossa musa, rainha, diva maior do teatro, foi assistir ao espetáculo. O discurso lindo que ela fez deu para a peça uma visibilidade enorme. Eu sempre me emociono quando eu lembro. É um espetáculo dos anos 80, mas o Gerald [Thomas] acrescentou novidades para que ele ficasse alinhado aos tempos atuais, o que ajudou nessa aproximação com o público.
Como foi trabalhar com o Gerald?
Foi um divisor de águas, tanto para mim quanto para ele. É uma oportunidade para ambos se deslocarem dos seus universos, furamos as nossas bolhas. Ele me emprestou uma mola propulsora para que eu pudesse tirar de mim o que eu queria. Por outro lado, também trouxe a minha leveza, porque eu não acredito em nada absoluto.
O processo foi difícil?
A gente se conheceu primeiro online porque ele mora em Nova Iorque. Quando nos encontramos, eu me assustei a princípio porque, por exemplo, a gente não fez leitura de mesa. O processo de trabalho dele é muito diferente do que eu estou acostumada. Já foi direto para o corpo. Fomos criando juntos, em comunhão. A gente fundiu os nossos olhares a respeito dessa mulher. Foi muito interessante, mas também assustador.
É bom sair da zona de conforto e fazer seu primeiro monólogo?
Eu buscava por isso. Como já diz o próprio título da peça, eu também estava “procurando sinais de vida inteligente”. Fiz muitos musicais e ainda faço. Mas, no musical, eu não posso sair do tom da música. Tenho que estar praticamente perfeita dentro da imperfeição que existe no teatro. No monólogo, eu me permito justamente fazer o exercício contrário. Não tem capa, invólucro, eu preciso encontrar a métrica todos os dias.
Como o texto conversou com você?
As mulheres sofrem violências que vem de vários lugares, de várias vertentes. A protagonista é uma consultora criativa que trabalha para grandes empresas. De repente, ela tem um insight, olha em volta e vê a realidade como um absurdo. Ela percebe o tamanho das atrocidades que acontecem nesse mundo, seja no universo corporativo, seja no dia a dia, na rua. É quando ela tem um burnout e passa a viver à margem da sociedade, se torna uma catadora de lixo. Só que a pergunta crucial é: foi ela que enlouqueceu e não suportou o que é ofertado, ou são vocês que não conseguem enxergar o que está acontecendo? Ali, ela acaba nos eletrodos. É isso o que acontece com mulheres que se rebelam.
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Assim como a personagem, você já se rebelou e a reação foi violenta?
Sim, na minha primeira separação [com o ator Cássio Reis]. Eu casei duas vezes e no primeiro divórcio eu fui muito julgada, porque meu filho tinha dois anos e meio. Eu tive um casamento tradicional, na igreja. Fui vilã. Pouco tempo depois, eu me casei de novo [com Jonathas Faro], tive outro filho. Nada tão diferente de muita gente. Mas, por ser uma pessoa pública, por ser mulher, por ter me casado com um menino, uma pessoa mais nova, eu sofri todo tipo de questionamento possível, o que não deixa de ser uma violência. Você não consegue sair disso sem cicatrizes. Mas, elas não me impedem de caminhar.
Você só estava em busca de seguir os seus desejos?
Sim. Precisei seguir caminhando, quase cambaleando, sendo apedrejada por ser quem eu sou, bancando quem sou. Isso me feriu muito ao longo do caminho. Não tem como. Você precisa manter equilíbrio quando tem filhos pequenos.
Hoje, a sociedade está mais preparada para mulheres que querem a própria felicidade?
Acredito que sim. A gente é fruto das pauladas que a gente toma. Sempre fui para o embate, para o que eu acreditava que era melhor para mim, o que me faria mais feliz. Na minha profissão também. Penso que sou mais feliz quando mostro que posso fazer mais do que ser a mulher gostosa, o sex symbol. Eu fui quebrando essa expectativa. Tive a felicidade de poder trabalhar com pessoas que me ajudaram a construir essa carreira. Mas, isso não teria acontecido se eu tivesse ficado sentada em cima do trono que me colocaram. Sinto que sempre tive vocação, mas o talento a gente vai lapidando, construindo. Não acredito em nada pronto. A gente precisa ser a nossa bússola.
O rótulo de ‘sex symbol’ te incomodou?
Fui muito feliz dentro do meu caminho. Me diverti muito. Lembro que o Wolf [o diretor Wolf Maia], um dos meus primeiros mestres, me disse: ‘Dani, não briga com a linha, ou você vai dar um nó’. Ele estava certo. De primeira, eu tinha muita ressalva, porque pensei que só me chamariam para papéis porque eu me cuido, tenho um corpo considerado padrão pela sociedade. Isso me incomodava. Lembro também do Ricardo [o diretor Ricardo Waddington], que foi quem me levou para a televisão. Ele me ensinou muito. Dizia: ‘menos maquiagem, Dani’. E agora estou assim no espetáculo. Só com filtro solar, de cara limpa.
É bom se reinventar?
Muito! Fui privilegiada por encontrar esses sinais de vida inteligente ao longo da minha vida. O Gerald veio nesse momento, coroando a escolha de adentrar novos universos. Aos 52 anos, sou chancelada pelos amigos, pelos pares. Penso que não tem atalho. O único caminho é o trabalho. Ao longo da minha carreira, fui ouvindo muito minha intuição. Sempre houve muitos palpiteiros de plantão, que se comportavam como se fossem os guardiões da minha vida. Só que sou eu quem tem a chave. É preciso buscar por sinais de vida inteligente. Não só no universo, não só aqui no nosso plano, mas dentro da gente.
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