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Bella Camero: ‘O corpo nu não é um objeto sexual, mas precisei aprender a me proteger’

Bella Camero é destaque da nova temporada de 'Sessão de Terapia` — Foto: André Cherri

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Nesta semana, ela estreia seu mais recente trabalho, a nova temporada de ‘Sessão de Terapia’, série do Globoplay protagonizada por Selton Mello; em conversa com Marie Claire, ela fala de autonomia, carreira e de seu novo personagem, uma mulher em busca da hiperformance

 

Bella Camero é uma mulher de seu tempo, com angústias e dúvidas típicas das mulheres de sua geração. Aos 32 anos, sabe que é preciso questionar os padrões e idealizações — e começou esse processo desde pequena. “Eu fui uma criança que começou a ter crises existenciais e angústias muito cedo”, conta ela em conversa com Marie Claire.

Filha da também atriz Dida Camero, ela teve uma criação livre, em que as possibilidades eram muitas. Foi por isso que desenvolveu uma relação de naturalidade com seu corpo. Nas redes sociais, por exemplo, começou a publicar cliques do cotidiano em que se exibia como é, sem neuras. Para ela, a nudez é apenas mais uma das expressões possíveis de sua existência no mundo. Quando mostrou a liberdade com que foi criada, sentiu o impacto de sua existência. O mundo não parecia preparado. “Quero que as pessoas possam encarar o próprio corpo sem vergonha, sem ódio e sem medo”, defende.

Nesta semana, ela estreia seu mais recente trabalho, a nova temporada de ‘Sessão de Terapia’, série do Globoplay protagonizada por Selton Mello. Na trama, vive Ingrid, uma trabalhadora do mercado financeiro em busca de hiperprodutividade. A personagem, que une humor e desespero, fez a atriz se questionar. “O que é o sucesso? É tudo muito relativo”, declara.

Em entrevista a Marie Claire, ela também fala da virada proporcionada por Marighella (2019) e dos desafios de viver da atuação.

Nssa nova temporada de Sessão de Terapia você vive uma mulher que se acha “estranha” e busca cada vez mais recursos para manter a alta performance. Você conseguiu encontrar pontos em comum entre você e a personagem?
Eu e a Ingrid somos de áreas profissionais muito diferentes. Inclusive, pesquisei muito e pedi ajuda para os poucos amigos que eu tenho do mercado financeiro para me ajudar a saber o que uma trader [profissional que trabalha comprando e vendendo ações] fazia, procurei sobre as expressões mais usadas. Hoje em dia, tem uma coisa comum que é essa hiper produtividade no trabalho, na vida, nos exercícios, ou seja, em tudo você tem que ter uma performance muito boa, essa corrida para se dar bem no mercado de trabalho. Tem esse pensamento coletivo que eu discordo completamente de que você tem que fazer sucesso até os 30. É uma cobrança enorme. O que é sucesso também? É muito relativo. Aonde eu quero chegar? Eu agora já tenho 33 e acredito que estou longe de estar onde eu achava que uma pessoa dessa idade deveria estar.

O que esse personagem tem de mais rico?
A Ingrid, ela teve para mim, uma coisa muito especial de criação de personagem. Primeiro, eu, Selton, Jacqueline (Vargas, autora) e Roberto (d’Avila, produtor), fizemos algumas leituras para entender para qual caminho ela poderia ir e qual seria o tom da personagem. Ela não é uma pessoa que fala numa cadência que você escuta fácil por aí. Não é que ela tem uma lente de aumento, ela é uma dessas pessoas que saem da curva, sabe? Do jeito de se comportar, não tem as mesmas normas sociais. Ela realmente é mais estranha nesse sentido e foi bom poder fazer essas escolhas. E a série tem esse tom hiper-realista, mas nesse lugar fora da curva. Isso deixa ela muito rica e é muito interessante porque ela nunca fez terapia, né? Ela não tem nada lapidado de sentimento, que é o oposto de mim, eu faço terapia desde criança, minha mãe é dessas. Então, os sentimentos saem muito crus. Ela nem entende o que fazer, então à medida que vai na terapia ela fala: “Eu tô piorando aqui”, porque começam a sair coisas que ela nem entende como lidar, sabe? Foi muito bom entender alguém que não sabe como lidar com terapia, sabe? Não sabe as coisas que vai falar lá, que se ouve, não sabe a ética de uma relação terapeuta e paciente.

Você também já ultrapassou seus próprios limites em busca de uma produtividade excessiva?
Eu já sofri mais do que eu precisava, sabe? Uma frustração com tudo que eu tinha conquistado, em vez de olhar para o que eu construí, seja na carreira, nas minhas relações. Eu ficava pensando no que faltava para chegar lá, sem entender o que é esse “lá”. Acho que o mercado de trabalho impõe essa correria, de você ter que aceitar muita coisa que não é o que você exatamente gostaria, mas precisa ganhar dinheiro. Ou precisa achar que tem que estar sempre trabalhando em uma profissão que as escolhas são muito importantes. Inclusive, dentro dos privilégios que eu já tive, avalio a oportunidade de poder negar certas coisas, ou escolher o que eu ia fazer, quando isso era possível, né? Então, diria que eu mais sofri de frustração do que chegar a ultrapassar meus limites.

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Bella Camero — Foto: André Cherri
Bella Camero — Foto: André Cherri

Selton Mello disse que você é, ao mesmo tempo, engraçada e intensa, e mostrou muita capacidade de improviso. Como foi esse jogo cênico entre vocês?
A Ingrid, na verdade, é hilária. Ela tem um fluxo de pensamento que sai falando, ela não pensa antes. acelerada. Em Sessão de Terapia, teve muito improviso, mas tinha o texto base. O Selton sabe que eu gosto de improvisar, que eu tenho uma experiência cômica que ele gosta. Então, ele falou: “não precisa seguir exatamente o que está no texto. Quero que você fale uma história completamente diferente do que está escrito”. Então, foi muito legal. O Selton às vezes até colocava mais perguntas para na hora sair outras coisas improvisadas. E eu gosto muito de trabalhar assim, né? Sei que o Paulo Gorgulho sempre fala que para ele foi muito difícil esquecer o texto, e para mim, improvisar era um sonho. Às vezes, eu tinha que segurar o riso e a equipe inteira também.

Bella, você tem uma mãe atriz, a Dida Camero. Você já disse que teve uma criação mais livre, sem tabus. Qual a importância dessa liberdade na sua criação? Você já disse que teve uma criação mais livre, sem tabus.
Desde nova a área artística foi meu universo,. Minha mãe é atriz e a gente foi morar em Belo Horizonte, ela era de uma companhia de teatro, mãe solo, acabava tendo que me levar para muitos ensaios, para as coisas que ela fazia, então eu via várias vezes as peças, essa era a minha rotina. Era assim que eu entendia o que era uma profissão. Então, eu era uma ótima aluna, muito boa, tipo assim, minhas notas eram altíssimas, menos educação física e artes, eu era péssima (risos). Quando eu fui ficando mais velha, a gente voltou para o Rio, eu amava física, biologia, né? Meu sonho, na verdade, desde criança, era ser ambientalista para poder mudar alguma coisa no mundo, salvar o planeta. Eu era uma criança idealista e passei para biologia e para engenharia. De repente, eu percebi que eu nem sabia onde trabalhava com isso, como era o dinheiro, como era a rotina, era como se fosse um hobby. Eu comecei a trabalhar muito nova e aí fiz a peça ‘Confissões de Adolescente’, depois comecei a fazer ‘Geral.com’ na Globo e foi numa época que minha mãe ficou bem sem grana, então era o dinheiro que ajudava a gente em casa.

Não precisei investir em um chamado que não veio. Percebi que meu verdadeiro talento não estava na atuação, mas sim no raciocínio lógico e na organização. Assim, retomei uma rotina mais familiar. Confesso que tive um conflito interno, pensando: ‘Meu Deus, estarei em uma profissão egoísta, que busca aplausos?’, e me senti um tanto idealista, achando que não estaria ajudando o planeta em nada. Mas, com o tempo, compreendi que existem diversas outras formas de me envolver em causas ambientais e sociais, sem que isso precise ser exclusivamente através da minha profissão. Descobri que a arte, por si só, possui um poder transformador imenso e é, de fato, muito potente.

 

O que a atuação representa na sua vida? Foi difícil bancar esse sonho de ser atriz?
Acredito que nas minhas escolhas profissionais, amorosas, religiosas, a liberdade que a minha mãe me deu, me ajudou a ter autonomia para tomar certas decisões. Por exemplo, aos 9 anos, já comecei a querer entender de religiões. Eu fui uma criança que começou a ter crises existenciais e angústias muito cedo e aí veio de mim essa busca pela espiritualidade. Minha mãe ela não só permitia, como me levava para conhecer. Cheguei a ir um templo Hare Krishna, aos 11 anos pedi para ser batizada na igreja católica e ela me batizou, então isso foi muito rico até eu chegar aqui hoje em dia no terreiro que eu frequento, né? Então, eu pude conhecer e experimentar. Ela sempre me ofereceu, muita coisa, muita leitura também, uma gama enorme, não sei nem como agradecer isso. Eu vejo amigos que trocam sobre isso ou pessoas, enfim, de outros lugares, outras vivências, que isso é uma coisa que, essa autonomia que eu tive das escolhas amorosas, eu pude entender mesmo por mim, não por uma coisa que ela me impunha ou que exigia ou que desaprovava, claro que ela já desaprovou umas pessoas ou outras coisas que eu me envolvi, mas isso é normal, né?

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Nas suas redes sociais, você sempre adotou um tom questionador, em busca da sua liberdade e do direito de ter controle sobre o seu próprio corpo. Como esse processo te ajudou?
Esse movimento tem muito a ver também com a minha criação, né? Eu tive esse aprendizado e uma compreensão de que o corpo nu, principalmente, da mulher, ele não é um objeto sexual. Ele é muito mais, ele é o que você quer que ele seja, ele pode ser um objeto sexual, como ele pode ser um corpo que quer pegar sol sem a parte de cima do biquíni, porque incomoda, porque não gosta da marca, porque fica molhado e gelado. Eu me colocava mais assim, não só nas redes sociais, mas na vida também. E eu fui entendendo que o mundo não era como esse da minha mãe, nem todo mundo tinha essa mesma visão do corpo. Então, tive que aprender também a me proteger nesse lugar, porque infelizmente não chegamos, mas não vamos desistir de chegar nesse lugar de que eu posso me sentir segura, tendo a minha liberdade que eu tenho com o meu corpo. Então, eu tento fazer isso para criar esse movimento para as pessoas se sentirem identificadas, para mostrar que tem esse outro lugar de encarar o próprio corpo sem vergonha, sem ódio e sem medo.

Desde 2020, você tem vivido um momento de muita produtividade e esteve no elenco de várias séries, muitas delas para o streaming. Esse mercado mais descentralizado te privilegiou?
Um pouco antes de 2020, inclusive, foi logo depois que eu me mudei para São Paulo, porque eu queria fazer coisas mais alinhadas com o que eu acreditava, com o que eu gostava. Eu achando que eu ia fazer teatro e logo que eu cheguei rolou Marighella e aí teve essa chegada dos streamings que, para mim, foi muito bom, eu comecei a fazer um monte de série legal em que não precisava ser mocinha para ter um papel bom, realmente assim, foi muito bom. Inclusive, é muito importante que tenha essa lei que exige determinada porcentagem de séries produzidas por esses streamings brasileiros e tinha que aumentar essa porcentagem, porque é muito bom descentralizar e quanto mais melhor, porque tem espaço para todo tipo de produção, para todo tipo de gosto, de atores, de histórias que são contadas. É mais um passo para produções independentes, né? Espero que a gente consiga chegar nesse lugar que a arte seja supervalorizada e não falte trabalho. Eu fiquei um tempo, assim, que foi difícil, na verdade, e lembro que falavam para mim, ‘você não para de trabalhar’. E eu estava, assim, fiquei muito tempo, antes de ‘Bom Dia, Verônica’, foi quase um ano. Foi muito difícil. Essa profissão também tem isso, né? Você trabalha e de repente, bum, não tem nada. A sorte é que eu tinha vindo, justamente, desse momento que eu trabalhei muito, consegui guardar um dinheiro, então sobrevivi bem, mas emocionalmente a gente fica assim: “ai, porque não estou trabalhando, quero trabalhar e eu amo tanto o que eu faço, amo tanto estar no set”. Lembro que em Sessão de Terapia, cada episódio é você e o terapeuta, então era o dia inteiro, eu amava estar lá, chegava cedo. Eu acordava muito feliz, eu saía muito feliz. Hoje em dia, eu aproveito cada trabalho que eu estou fazendo, porque vai saber quando é o próximo e porque eu gosto muito.

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