Onze aves que estavam na natureza em Curaçá (BA) testaram positivo para circovírus
O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) confirmou que 11 ararinhas-azuis testaram positivo para circovírus. O vírus pode ser letal para a maior parte dos casos encontrados nos psitacídeos (grupo de aves que inclui araras, papagaios e periquitos).
Estas aves fazem parte de um grupo que foi solto pelo Criadouro para Fins Conservacionistas do Programa de Reintrodução da Ararinha-Azul, anteriormente identificado como BlueSky, em Curaçá (BA), em 2022. O primeiro caso de suspeita da doença surgiu em maio deste ano, o que levou a uma investigação da saúde dos 11 indivíduos.
Ararinha-azul é uma espécie endêmica da Caatinga ameaçada de extinção — Foto: Luiz Claudio Marigo
Oriundo da Austrália, o circovírus dos psitacídeos é o principal causador da doença do bico e das penas em psitacídeos. O ICMBio destaca que não há cura e que o vírus mata a ave infectada na maior parte dos casos. Os sintomas incluem a alteração na coloração das penas, falhas no empenamento e deformidades no bico. O circovírus não infecta humanos nem aves de produção, como galinhas e patos, destaca o instituto.
A disseminação da doença se dá por meio das penas e o pó das plumas de descamação, das secreções do papo e até das fezes. Por isso, ao ser identificada com a doença, a ave deve ficar em quarentena, afastadas de indivíduos saudáveis. A contaminação pode ocorrer por inação ou ingestão de partículas do vírus, o que ocorre com a proximidade.
“A detecção do vírus em exames é dificultada por fatores como intermitência da eliminação viral pelas aves infectadas (a ave pode conter vírus em seu organismo, ainda que não esteja eliminando para o exterior no momento do exame), tipo de amostras coletadas, forma de coleta e armazenamento das amostras e tipo de exame realizado”, explicou o ICMBio em nota divulgada em setembro deste ano. E prossegue:
“A ocorrência de falsos-negativos nos resultados torna o cenário complexo, o que gera a necessidade de cuidados extras, como a realização de uma bateria de exames individuais, com amostras diversificadas antes que se possa concluir sobre o estado sanitário de um exemplar ou de uma população, razão pela qual resultados negativos isolados não são suficientes para indicar que o vírus não esteja presente”.

As ararinhas-azuis chegaram ao Brasil repatriadas da Europa e foram mantidas no Criadouro para Fins Conservacionistas do Programa de Reintrodução da Ararinha-Azul, onde passaram por acompanhamento até estarem aptas a serem soltas na natureza. A iniciativa faz parte dos esforços de conservação da espécie (Cyanopsitta spixii), hoje, ameaçada de extinção.
O Instituto Chico Mendes já considera que não há uma população selvagem viável no Brasil desde os anos 1990, quando expedições percorreram mais de 55 mil quilômetros sem encontrar registros. Por isso, a espécie foi classificada como “Criticamente em Perigo (Possivelmente Extinta)” na natureza. As aves soltas em Curaçá, repatriadas da Europa, eram a aposta para restabelecer uma população livre — tentativa suspensa com a descoberta do vírus e a necessidade de colocar todas em cativeiro.
Apesar da contaminação, a espécie não está restrita a esses 11 indivíduos. Criadouros mantêm a maior parte das ararinhas existentes hoje, incluindo Associação para a Conservação de Papagaios Ameaçados (ACTP, na sigla em inglês), que reúne a maior quantidade delas no mundo. Esses grupos seguem sem sinais da doença e são a base da reprodução da espécie. No Brasil, outros recintos também têm ararinhas saudáveis, sem contato com a área onde o vírus apareceu.
O Criadouro da Ararinha-Azul, responsável pela soltura e monitoramento do grupo diagnosticado com o vírus tem, hoje, 103 indivíduos da espécie, segundo o ICMBio. A repatriação de 93 ararinhas — dos quais 52 em 2020 e 41 em fevereiro de 2025 — da Alemanha para o Brasil foi viabilizada pelo Acordo de Cooperação Técnica (ACT) nº 8/2019 celebrado entre o instituto e a ACTP em anos anteriores.
Na prática, o futuro imediato da ararinha-azul volta a depender totalmente dos criadouros. O novo vírus travou os planos de reintrodução, mas não ameaça, neste momento, toda a população existente.

Retirada da natureza
As 11 aves que são monitoradas foram recapturadas e retiradas da natureza após suspeita da infecção pelo vírus. O ICMBio, vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), afirma, em nota, que “no momento, investigações vêm sendo realizadas para conhecer a origem do vírus nas ararinhas”. Entre as ações previstas está ainda “a separação segura entre animais positivos e negativos, para garantir que as medidas de biossegurança sejam incorporadas à rotina de manejo dessas aves”.
O Criadouro Ararinha-Azul discorda dos diagnósticos. Em nota, a instituição afirma que foram coletadas amostras biológicas e realizados três testes para cada ave recapturada. Segundo o criadouro, “dois dos testes utilizaram a metodologia recomendada internacionalmente indicaram resultado positivo para apenas 2 aves. Uma terceira apareceu positiva para apenas um desses dois testes. O terceiro teste usando uma técnica nova com maior risco de erro que apontou resultado para as 11 aves”.
Em resposta ao GLOBO na última quinta-feira, o ICMBio afirmou que “usou de suas prerrogativas, como órgão fiscalizador e científico, para aplicar sanções administrativas cabíveis à empresa BlueSky, por diferentes infrações cometidas”.
O órgão disse ainda que “não foi notificado formalmente, pelas vias legais, de eventuais discordâncias da empresa em relação às medidas tomadas” e que, por isso, não irá se manifestar sobre “suposições” envolvendo sua atuação. Segundo o instituto, as equipes seguem trabalhando na avaliação da disseminação do vírus e no monitoramento da situação na região.

Empresa multada
A investigação sobre a saúde das ararinhas-azuis que estavam de volta à natureza tiveram início em maio deste ano, quando foi detectado o circovírus em um dos indivíduos. O Instituto Chico Mendes instaurou o Sistema de Comando de Incidente para gerenciar a Emergência Circovírus, com medidas para impedir a proliferação do vírus. Em parceria com o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia (Inema) e a Polícia Federal foram realizadas visitas técnicas às instalações do Criadouro para fins Científico do Programa de Reintrodução da Ararinha-Azul, onde foi constatado que os protocolos de biossegurança não estavam sendo seguidos, segundo o instituto. Assim, foi aplicada uma multa no valor aproximado de R$ 1,8 milhão em desfavor do criadouro e de seu diretor.
O criadouro confirma que foi autuado, porém, “não foi apresentado nenhum laudo que ampare o auto de infração”, tendo sido solicitado o acesso para que seja possível “recorrer e mesmo corrigir caso haja algo que seja necessário”, disse, em nota.
Entre as exigências estão limpeza e desinfecção diária das instalações e dos utensílios, incluindo os comedouros onde era fornecida alimentação diária às aves de vida livre. De acordo com o ICMBio, esses locais “se encontravam extremamente sujos, com acúmulo de fezes ressecadas”. Ainda foi determinada a obrigatoriedade do uso de equipamentos de proteção individual (EPIs) pelos funcionários. Durante as vistorias, a equipe era “reiteradamente” flagrada “utilizando chinelos, bermuda e camiseta durante o manejo dos animais”.

“Se as medidas de biossegurança tivessem sido atendidas com o rigor necessário e implementadas da forma correta, talvez a gente não tivesse saído de apenas um animal positivo para 11 indivíduos positivos para circovírus”, relatou Cláudia Sacramento, coordenadora da Coordenação de Emergências Climáticas e Epizootias do ICMBio, que está à frente da emergência.
Segundo o criadouro, “hoje essas aves estão isoladas das demais ararinhas em recinto específico”, tendo sido adotadas “medidas para que não haja nenhum intercâmbio de material com os outros animais”, afirmou, em nota.
Alvo de operação pelo Inema, o criadouro foi autuado em cerca de R$ 300 mil. O espaço é parceiro da organização alemã Associação para a Conservação de Papagaios Ameaçados (ACTP, na sigla em inglês), que detém 75% das ararinhas registradas em todo o mundo. Esta organização que foi a responsável pela transferência dos 93 indivíduos, viabilizada pelo Acordo de Cooperação Técnica (ACT) nº 8/2019. Cinco anos depois, o acordo foi encerrado, tendo entre os principais fatores para esta decisão a venda e transferência de 26 (vinte e seis) ararinhas-azuis da Alemanha para a Índia, realizadas pela ACTP sem o conhecimento ou consentimento do ICMBio, afirmou o órgão. O instituto viu a ação como um descumprimento em medidas que auxiliem no projeto de reintrodução em ambiente natural das aves.


















