Denúncia foi encaminhada à Polícia Civil, OAB e ao Ministério Público, em dezembro. O caso veio à tona após um investigador ser preso suspeito de estuprar uma detenta na unidade.
Mensagens vazadas de um celular funcional da Delegacia da Polícia Civil de Sorriso (MT), em dezembro, mostram comentários, em um grupo de WhatsApp, que sugerem abusos sexuais a outras detentas e possíveis torturas a investigados. A Polícia Civil diz que o aparelho de onde partiram os vazamentos foi furtado meses antes, em outubro do ano passado.
O g1 teve acesso a mensagens e áudios vazados do celular oficial. Elas mostram a existência de um grupo intitulado “DHPP/Assuntos Oficiais”, uma referência à Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa, o nome da unidade.
Um print datado de 6 de novembro mostra uma conversa sobre uma detenta. Um dos participantes escreve: “uma escaldada nessa piranha, rapaz, pode comer”, seguido de risada. No mesmo grupo, uma mulher reage com surpresa à mensagem “Que isso”(confira abaixo).
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/e/c/BzYaa0SX2qhgQLmjDcdg/policiais-conversam-grupo.jpg)
Print mostra conversa entre policiais em grupo de mensagens em MT — Foto: Reprodução
À época do vazamento das conversas, com prints compartilhados pelo WhatsApp, o delegado titular Bruno França afirmou à imprensa que trechos das conversas foram apagados e editados para prejudicar o trabalho da Polícia Civil e sugerir condutas ilegais da equipe.
O g1 submeteu os prints à verificação do Foto Forensics, ferramenta que indica possíveis alterações em imagens, e o resultado apontou que não houve adulteração no conteúdo das mensagens.
Em dezembro, após um investigador da delegacia ser denunciado por estupro de uma detenta no local, um grupo de advogados criminalistas se reuniu para discutir o caso e os prints vazados, que, segundo eles, já indicavam condutas irregulares. A denúncia foi enviada à Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Mato Grosso (OAB-MT), ao Ministério Público do Estado de Mato Grosso (MPMT), à Corregedoria da Polícia Civil e à Associação Nacional da Advocacia Criminal (Anacrim).
Em nota, a Polícia Civil informou que irá apurar a autenticidade dos prints e o contexto em que foram postados, assim como possível desvio de conduta de policiais.
“As mensagens de conversa que constam no aparelho celular, se verdadeiras, não têm nenhuma relação com o caso de estupro de uma mulher que aconteceu no mês de dezembro de 2025“, disse.
Ao g1, a Corregedoria Geral da Polícia Civil informou que recebeu a denúncia nesta quinta-feira (5). Já a OAB-MT e o Tribunal de Defesa das Prerrogativas (TDP) afirmaram que encaminharam um ofício solicitando providências ao corregedor-geral da Polícia Civil e aguardam mais informações para investigação.
Procurado pela reportagem, o Ministério Público disse que não recebeu nenhuma denúncia formal sobre o assunto, apesar dos advogados incluírem a instituição no encaminhamento.
Outras mensagens também citam práticas que podem indicar irregularidades, segundo uma fonte consultada que não quis ter a identidade divulgada, e explicou o significado de expressões usadas nas conversas:
- “Meter flagrantão no pelo” é forjar prisão em flagrante.
- Um delegado alerta para somente lesionar (torturar) presos a partir da segunda quinzena de março, quando o médico legista que, supostamente, deixa de constatar as lesões, retornaria das férias.
- “O celular dele tá com o B* instalado” significa que os policiais tiveram acesso e manusearam o celular de um investigado e instalaram um aplicativo espião, para monitorar de forma ilegal as mensagens do investigado.
- “A gente tá pegando uma arma e rodando ela pelos confrontos” indica que a mesma arma está sendo ‘plantada’ em ‘confrontos’ entre a polícia e suspeitos. Nestes ‘confrontos’, o resultado é sempre a morte do suspeito (veja na imagem abaixo).
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/q/0/3787ySQPS7nOtL1SxKgA/confronto-arma-grupo.jpg)
Print mostra conversa para plantar suposta arma em confronto em MT — Foto: Reprodução
Outros casos
Outros casos formalizados em denúncias no MP, em 2024, sobre a mesma equipe da delegacia apontam para possíveis abusos de autoridade.
No dia 13 de janeiro de 2024, uma jovem denunciou que foi agredida na porta de casa pelos policiais e levada dentro da viatura até um matagal. No trajeto, quatro deles teriam dito, em tom de ameaça, que usariam o cano da arma para abusá-la.
Ao chegarem no local, um deles teria pego um pedaço de madeira, conforme o depoimento dela, enquanto outro a segurava no mato. Eles teriam batido no braço dela e falado que “ninguém iria socorrê-la”. No relato, a jovem disse ainda que a todo momento era questionada sobre quem seria o autor de um homicídio na cidade.
Ela negou qualquer envolvimento com facção criminosa, mas, conforme relatou ao MP, o irmão dela e o amigo dele poderiam estar envolvidos no crime. Assim que entregou esses nomes aos policiais, eles saíram do matagal com ela e foram até a delegacia, onde familiares da jovem a esperavam na frente da unidade.
Este caso, contudo, permanece parado e a investigação não teve andamento.
Estupro na delegacia
A atenção sobre a delegacia veio à tona após uma detenta ter denunciado que foi estuprada cerca de quatro vezes por um investigador dessa mesma delegacia, em dezembro do ano passado.
Ela estava detida após ser apontada por participação em um homicídio, no entanto, foi solta depois por falta de provas. Em seguida, relatou o caso ao advogado e, depois, procurou o Ministério Público para formalizar a denúncia.
Ainda de acordo com a declaração da defesa, o investigador retirava a mulher da cela e a levava para uma sala vazia. Nas quatro ocasiões, segundo o advogado, o abusador ordenou que a vítima ficasse em silêncio, sob a ameaça de matar a filha dela, que é menor de idade.
A delegada responsável pelo caso, Layssa Crisóstomo, informou que, após a denúncia, a vítima passou por exame pericial com coleta de material genético, que foi confrontado com o de todos os policiais que estavam de plantão no dia do crime. Os exames apontaram compatibilidade do material genético com o de Manoel, reforçando a suspeita de violência sexual.
Ainda conforme a delegada, outras presas foram ouvidas, mas, até a publicação desta reportagem, não houve novas denúncias contra o policial. A Polícia Civil investiga esse caso.

















