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Testosterona em mulheres: o que é seguro, o que é proibido e quando realmente faz sentido usar

Imagem Divulgação

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Sociedades médicas brasileiras alertam para o crescimento de usos inadequados do hormônio e explicam quais são os riscos, quem tem indicação e por que a dosagem de testosterona não deve ser solicitada na maioria dos casos

 

A prescrição de testosterona para mulheres se tornou um fenômeno nas redes sociais e, cada vez mais, na prática clínica. Diante do aumento de usos inadequados, da popularização de implantes hormonais e da circulação de promessas sem respaldo científico, três sociedades médicas brasileiras divulgaram, na quarta-feira (10), um alerta conjunto sobre os riscos associados ao hormônio.

O documento, assinado pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem), pela Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) e pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), reforça que não existe formulação aprovada pela Anvisa para uso feminino e que a testosterona não deve ser utilizada para aumentar disposição, melhorar composição corporal, aprimorar desempenho físico ou corrigir supostos déficits hormonais.

O uso do hormônio se difundiu como solução rápida para fadiga, baixa libido e mudanças estéticas, especialmente por meio de implantes manipulados, que não têm regulamentação nem dados de segurança.

Parte dessa popularização se deve à internet. “As redes sociais uma terra sem dono, onde pessoas que têm interesse em prescrever hormônios de forma inadequada têm uma voz grande. Artistas e até a própria mídia às vezes chancelam condutas que não são adequadas”, aponta o endocrinologista Clayton Macedo, diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem) e coordenador do Núcleo de Endocrinologia do Exercício da Unifesp.

A seguir, respondemos algumas das principais dúvidas sobre o uso de testosterona em mulheres.

Quais são as indicações reais da testosterona para mulheres?

 

A testosterona só tem uma indicação reconhecida pela ciência: o tratamento do transtorno do desejo sexual hipoativo (TDSH) em mulheres na pós-menopausa. Mesmo nessa situação, o uso é considerado uma tentativa terapêutica, não uma correção hormonal.

O diagnóstico é clínico, o que significa que não depende de exames de sangue. E é de exclusão, ou seja, antes de cogitar prescrever o hormônio, o médico precisa investigar e tratar outras causas muito mais frequentes de baixa libido.

Entre os motivos estão a queda de estrogênio típica da menopausa; a síndrome urogenital, que causa ressecamento vaginal e desconforto na relação; a depressão e outros transtornos de saúde mental; o uso de antidepressivos, que reduzem o desejo sexual; a obesidade e o sedentarismo, que alteram o equilíbrio dos hormônios sexuais.

Uso de testosterona para fins estéticos e de performance é proibido no BrasilUso de testosterona para fins estéticos e de performance é proibido no Brasil — Foto: Scottwebb para Pexels

A dimensão socioeconômica e emocional também entra nessa equação. Conflitos conjugais costumam ter grande impacto sobre o desejo feminino, assim como dificuldades financeiras, por exemplo.

Somente quando todos esses fatores são avaliados e manejados é que a testosterona pode ser considerada, sempre em doses baixas, por três a seis meses e com acompanhamento cuidadoso. Mesmo assim, os resultados tendem a ser modestos e não são isentos de riscos.

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“Os profissionais de saúde mental e os sexólogos são mais importantes para tratar a queda na libido na mulher. As pessoas querem isso? Não, querem gel de testosterona”, criticou o endocrinologista Alexandre Hohl, professor de endocrinologia e metabologia da Universidade Federal de Santa Catarina e diretor da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), em entrevista à Marie Claire.

Devo pedir um exame para saber se a minha testosterona está baixa?

 

Não. Os níveis de testosterona nas mulheres são naturalmente baixos — geralmente abaixo de 100 picogramas — enquanto os métodos laboratoriais são calibrados para detectar níveis masculinos, cerca de dez vezes maiores.

Isso torna o exame impreciso e muito sujeito a resultados baixos, que não significam deficiência. “A detecção é falha, mas dentro da média normal da mulher. O fato de estar baixo não quer dizer que está deficiente”, diz Macedo.

Apesar disso, muitos profissionais pedem não só testosterona total, mas uma bateria de metabólitos, como DHEA e androstenediona, criando a impressão equivocada de investigação profunda.

A dosagem só faz sentido quando há suspeita de excesso, e não de falta. Trata-se de casos de hiperandrogenismo, como síndrome dos ovários policísticos, tumores ovarianos e algumas doenças genéticas. Nessas situações, o exame faz sentido.

Estou usando testosterona com acompanhamento médico. Nesse caso, é seguro?

 

O acompanhamento médico não elimina os riscos quando a prescrição não tem indicação clínica reconhecida. Mesmo sob supervisão, a testosterona pode aumentar a chance de hipertensão, arritmia, trombose, embolia pulmonar, infarto, AVC, alterações hepáticas e mudanças definitivas no corpo, como engrossamento da voz e aumento do clitóris.

Outro problema é a dose. Para produzir os efeitos frequentemente prometidos, como mais energia, melhora do desempenho físico ou ganho muscular, seriam necessárias quantidades muito superiores às recomendadas em qualquer protocolo médico. “Não existe dose segura. E não existe acompanhamento que elimine o risco, porque a biologia do hormônio faz o risco ser aumentado”, alerta Macedo.

Por que parece haver tanta divergência entre médicos sobre o uso de testosterona?

 

Do ponto de vista científico, não há debate. “A ciência é uma só e tem o mesmo discurso: não existem dados favoráveis ao uso sem indicação. E as indicações são bem claras”, aponta Macedo.

O que cria a impressão de conflito é a atuação de profissionais que não seguem as diretrizes das sociedades médicas.

Há um ecossistema que sustenta o uso indiscriminado do hormônio, envolvendo desde quem produz e manipula implantes até médicos que prescrevem o medicamento muitas vezes com fins comerciais. “Eu não sou contra. Eu faço medicina ética e científica. Não faço comércio e não exponho a saúde das pacientes com objetivo de lucro”, diz Macedo.

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A testosterona pode ser usada para dar mais energia, melhorar a performance no exercício físico ou ajudar a ganhar massa muscular?

 

De jeito nenhum. Esses usos não têm indicação médica, não têm comprovação científica e são justamente os mais perigosos. A prescrição de testosterona para fins estéticos ou de performance é proibida tanto pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) quanto pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), porque os riscos superam os benefícios.

Para causar mudanças perceptíveis em energia, desempenho esportivo ou ganho de massa muscular, seriam necessárias doses superiores às que são consideradas minimamente seguras.

Sim, o hormônio pode provocar sensação de bem-estar e aumento de libido, mas esse efeito é acompanhado de riscos. “Se eu der testosterona em dose acima do que a mulher necessita, ela vai se sentir melhor e vai ter mais libido, porque é um hormônio anabolizante. Se eu der cocaína, a pessoa também vai se sentir mais disposta, mas nem por isso eu vou dar”, compara Macedo.

Por que alguns efeitos colaterais podem ser permanentes?

 

Isso ocorre porque o hormônio modifica estruturas anatômicas. No caso da voz, a testosterona altera a anatomia das cordas vocais, que passam a vibrar como as de um homem. Essa transformação é irreversível.

O clitóris também pode aumentar de tamanho de forma definitiva. Embriologicamente, essa estrutura se origina do mesmo tecido que dá origem ao pênis, chamado falus. Quando exposto a testosterona em níveis elevados, o clitóris hipertrofia e adquire características anatômicas masculinas.

Existe via mais segura de usar testosterona quando ela é realmente indicada?

 

Quando há TDSH em mulheres na pós-menopausa, a via considerada menos arriscada é o gel transdérmico em doses baixas. Mesmo assim, não se trata de um uso isento de riscos.

Já os implantes hormonais, os populares “chips da beleza”, não são recomendados. Eles liberam o hormônio de maneira imprevisível, não permitem ajustes finos ao longo do tratamento e não têm aprovação da Anvisa. Além disso, costumam empregar doses muito mais altas do que as que seriam necessárias, o que eleva a probabilidade de efeitos irreversíveis e complicações cardiovasculares, hepáticas e metabólicas.

No caso do gel, a dose deve ser pequena, por tempo curto — geralmente de três a seis meses — e com acompanhamento médico contínuo. Ainda assim, o objetivo não é transformar o corpo ou fornecer mais energia, mas apenas tentar melhorar um sintoma após todas as outras causas terem sido tratadas.

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