Iniciativa em Poconé (MT) une ciência e sabedoria pantaneira para resolver um conflito entre humanos e felinos.
No vasto horizonte do Pantanal de Poconé (MT), onde a cultura do gado e a vida selvagem dividem o mesmo chão há mais de 200 anos, uma ‘guerra silenciosa’ começa a dar lugar a uma trégua tecnológica. Um projeto inédito na região conseguiu reduzir em 83% a morte de bezerros por ataques de onças-pintadas e tornou-se uma garantia de sobrevivência para os próprios felinos.
Trata-se do Instituto Impacto, uma iniciativa nascida dentro das porteiras pantaneiras que está provando que é possível lucrar com a pecuária mantendo a onça-pintada viva.
A solução parece simples, mas é carregada de ciência: cercas elétricas adaptadas.
Em propriedades-modelo, a tecnologia reduziu em 83% a mortalidade de bezerros, transformando prejuízo em esperança.
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É preciso desarmar o preconceito
Para entender a solução, é preciso desarmar os preconceitos. “Não há vilões nessa história”, resumiu Paul Raad, coordenador e fundador do Instituto Impacto e pesquisador que vive o dia a dia da região.
De acordo com ele, cerca de 95% do Pantanal é área privada e 80% é destinada à produção rural. O pantaneiro, guardião histórico do bioma, muitas vezes se vê encurralado.
“A onça é um animal oportunista. Quando ela preda o gado, gera um prejuízo econômico real. Sem alternativas, o produtor acaba eliminando a onça por retaliação. Ambos são vítimas da falta de ferramentas”, explicou Raad.
Foi nesse cenário, na Pousada Piuval — uma propriedade de 7 mil hectares e 2,5 mil cabeças de gado gerida pela família Eubank há cinco gerações — que a mudança começou.
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O ‘susto’ educativo: como funciona a cerca
Diferente das cercas convencionais, o sistema implantado pelo projeto foi desenhado pensando na biologia do felino. São três fios intercalados (positivos), começando a apenas 20 centímetros do chão.
“A onça não costuma pular para caçar; ela se agacha e vem rastejando de forma furtiva. É aí que ela encontra o fio”, detalhou.
- O animal recebe uma descarga de 6.000 volts. O número assusta, mas a tecnologia é segura.
- Alta Voltagem, Baixa Amperagem: O choque é um pulso rápido (fração de segundo).
- O efeito causa dor imediata e um grande susto, mas não provoca queimaduras, nem danos físicos.
- O Objetivo não é machucar, é criar uma memória negativa associada ao gado.
O caso ‘Kaduzinho’
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O instituto gerou um artigo científico internacional – “Interações sociais em onças-pintadas: isso promove o aprendizado?” – que quebrou paradigmas sobre o comportamento desses animais.
As armadilhas fotográficas registraram algo inédito: o aprendizado social. As câmeras flagraram Kaduzinho — um jovem macho — acompanhando uma fêmea chamada Baía e seus filhotes (vídeo no início da matéria).
Ao tentar se aproximar do curral protegido, Kaduzinho levou o choque. O que aconteceu em seguida surpreendeu os pesquisadores. As outras onças, que apenas observavam, não precisaram levar o choque. Elas viram a reação de Kaduzinho e entenderam o perigo.
O grupo desistiu do gado. Dias depois, as câmeras registraram o mesmo grupo caçando capivaras e guaxinim.
“Isso prova que a cerca não deixa a onça com fome. Ela funciona como uma ‘educadora’, redirecionando o predador para suas presas naturais”, celebrou Paul.
A conta que fecha
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Como o próprio especialista afirma, para o trabalhador do campo, a paixão pela natureza só se sustenta se a conta fechar no fim do mês. E o modelo da Pousada Piuval provou ser economicamente viável.
O custo de instalação da cerca elétrica na área monitorada foi equivalente ao valor de dois bezerros. Em contrapartida, o sistema salvou cerca de 23 bezerros em uma única temporada.
“O investimento se paga muito rápido. Foi a primeira vez que vi um produtor tirar dinheiro do próprio bolso para investir na convivência com a onça, em vez de combatê-la. Isso mostra uma mudança de mentalidade”, afirmou.
O futuro é a coexistência
O Instituto Impacto, formado por veterinários e pantaneiros locais — incluindo membros da diretoria que são produtores rurais, como Breno Dorileu —, agora busca expandir a tecnologia.
Existe também o PIP Coexistência (Programa Integrado Pantanal), focado no pequeno produtor ribeirinho. Além da WWF Brasil e a ZAA (Associação de Zoológicos da América), que ajudaram a financiar o projeto. “Para quem tem 5 bezerros, perder um para a onça é uma tragédia de 20% do patrimônio. Proteger o pequeno é fundamental para evitar a caça da onça”, disse Raad.
A visão para os próximos 10 anos é de um Pantanal onde as cercas não dividam, mas unam propósitos. “Nosso sonho é que a onça deixe de ser vista como inimiga e passe a ser entendida como parte da fazenda. Uma onça viva precisa valer mais do que uma morta”, concluiu Paul.
No compasso lento das águas e na sabedoria do povo pantaneiro, a tecnologia surge não para dominar a natureza, mas para permitir que o ciclo da vida continue — com o gado no pasto e a onça na mata.
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