Conversas recuperadas pela perícia mostram que oficial usava sustento da casa para exigir relações e obediência; Gisele Alves Santana tentava acelerar a separação na véspera de ser morta
As investigações sobre a morte da soldado Gisele Alves Santana, ocorrida em 18 de fevereiro no Brás, avançam sobre a análise de dados do aparelho celular da vítima, revelando um cenário de controle coercitivo que a Polícia Civil descreve como um “manual de submissão”. O material, que havia sido apagado do celular do tenente-coronel Geraldo Neto e foi recuperado pela perícia no aparelho de Gisele, contradiz o depoimento do oficial e expõe uma rotina de violência psicológica e barganhas financeiras.
Gisele foi encontrada morta com um tiro na cabeça no dia 18 de fevereiro, no apartamento do casal no Brás, centro de São Paulo. A perícia da Polícia Civil constatou que o aparelho da soldado foi desbloqueado e manuseado minutos após ela ter sido baleada, inclusive após o próprio tenente-coronel já ter acionado o 190.
Os dados extraídos do aparelho da vítima e os depoimentos colhidos pela Polícia Civil expõem que o oficial tentava gerir o casamento sob um código de conduta unilateral. Em diversos momentos, as mensagens mostram o oficial contrapondo o suporte financeiro à disponibilidade sexual de Gisele.
Tenente-coronel Geraldo Leite e a esposa, a soldado da Polícia Militar Gisele Alves Santana — Foto: Reprodução/Redes Sociais
Em uma das mensagens enviadas por Geraldo, ele lista uma série de “falhas” domésticas de Gisele para justificar sua insatisfação e reforçar a ideia de que a provisão do lar deveria ser paga com sexo. Na mensagem, ele reclama de tarefas não cumpridas e do tempo que a soldado dedicava à filha, Giovanna:
“Eu trabalho e durmo. Não tenho vida sexual ativa porque minha esposa só tem tempo e dedicação para filha. Eu só gasto dinheiro com aluguel, condomínio, água, luz, gás, mercado e mais 1.600 reais para você e não tenho nada em troca. Nem respeito, nem obediência, nem carinho, nem atenção. Muito menos sexo”, escreveu o tenente-coronel.
A resposta de Gisele, conforme as mensagens periciadas, confronta a lógica que o marido tentava impor. Ao ser cobrada pelo “investimento” de R$ 1.600 e pelas contas da casa, a soldado reagiu: “Eu não sou puta para você me pagar com coisas para eu transar com você”. O oficial, então, radicaliza a punição financeira: “Então não peça nada. Nem um real”.
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Em depoimento sobre as últimas horas de Gisele, o oficial declarou em interrogatório que, na noite de 17 de fevereiro — véspera do crime —, o casal teria tido um momento de vulnerabilidade emocional após “colocarem as cartas na mesa”, o que teria resultado em uma relação sexual no sofá da sala.
Não é claro se tratou de uma relação consensual, e a perícia e as mensagens de Gisele contrastam com a ideia de uma conexão mútua. Confrontado pelo delegado sobre o nítido desinteresse da soldado em manter qualquer intimidade, o tenente-coronel justificou a suposta relação alegando que seus níveis elevados de testosterona tornariam inviável a abstinência sexual.
Ela queria o divórcio
As mensagens também colocam em xeque a versão de Geraldo Neto para a morte da esposa, de que ele teria pedido o divórcio no dia do crime e ela, em desespero, cometido suicídio. Os diálogos mostram que era Gisele quem insistia na separação, afirmando que abriria mão de qualquer bem para manter sua integridade: “Vejo que se arrependeu do casamento, eu também, e tenho todo direito de pedir o divórcio. Não quero nada seu. Como te disse, eu me viro para sair, tenho minha dignidade. Pode entrar com pedido essa semana”, escreveu ela no dia 17 de fevereiro.
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As conversas apagadas foram recuperadas pela polícia e apontam que a última mensagem de Gisele para o marido foi enviada às 23h, em que ela reforçava que Geraldo podia entrar com o pedido de divórcio. Veja transcrição abaixo das mensagens recuperadas:
- Gisele: Mas já que decidiu separar
- Gisele: Agora podemos tratar de como vou sair
- Gisele: Você confundiu carinho com autoridade, amor com obediência, provisão com submissão
Para a investigação, as conversas foram apagadas para o tenente-coronel sustentar a versão de que seria o responsável pelos pedidos de separação, e não a vítima.
Tenente-coronel agrediu esposa dentro do quartel
O histórico de agressividade do oficial não se limitava à residência. Colegas de farda relataram à Polícia Civil episódios de violência dentro do Quartel-General da PM. Testemunhas afirmaram que Geraldo já havia pressionado Gisele contra a parede em um corredor da unidade e que câmeras de segurança teriam registrado o oficial em uma cena descrita como sufocamento, segurando a soldado pelo pescoço.
No ambiente de trabalho, o tenente-coronel exercia um controle obsessivo, utilizando sua patente superior para vigiar a rotina da esposa e proferir ofensas, chegando a dizer que ela deveria “arrumar um soldado” como forma de desprezo.
A acusação de feminicídio e fraude processual ganhou força com o laudo necroscópico, que apontou que Gisele foi abordada por trás. O agressor teria usado a mão esquerda para apertar sua face e pescoço enquanto disparava a arma encostada à têmpora direita, de baixo para cima.
A cena do crime também apresentava sinais de manipulação: a arma foi encontrada presa ao dedo da vítima de forma inusual para casos de suicídio, e o uso de luminol detectou sangue no banheiro onde o tenente-coronel afirmou estar tomando banho sem ter tido contato com a cena.
Geraldo Neto permanece preso preventivamente desde 18 de março. A defesa recorreu ao Superior Tribunal de Justiça, alegando que as mensagens foram descontextualizadas e mantém a tese de suicídio.











